Projeto Lontra

Todos nós já falamos ou escutamos inúmeras afirmações a respeito da importância do Turismo como atividade capaz de promover o desenvolvimento sustentável, a inclusão socioeconômica e a valorização da cultura. De fortalecer a autoestima das populações locais, de seu grande potencial para gerar renda para micro e pequenos empreendedores a partir de baixos investimentos, entre muitas outras.

Neste contexto gostaria de colocar Brumadinho (MG), cidade turística que, antes do dia 25 de janeiro, era reconhecida pelas belezas naturais, pela mineirice, pela culinária, pela cultura, pela hospitalidade, pelas paisagens, por ser o portão de entrada para Inhotim.

Projeto Lontra

Passados alguns dias da tragédia, ainda tenta a aceitar a nova realidade. Até o dia 14 de fevereiro já haviam sido contabilizadas 166 mortes, 144 pessoas desaparecidas e centenas de quilômetros quadrados devastados pelo rompimento da barragem 1 do Complexo Mina Córrego do Feijão. Diante de tantas e tão impactantes perdas, como o município e seus moradores conseguirão seguir em frente?

Como se não bastasse a perda de tantas vidas e de recursos naturais, também é importante ressaltar que a mineradora Vale era responsável por aproximadamente 35% da arrecadação municipal e que, por ser a maior contratadora local, influenciava uma longa cadeia produtiva de prestadores de serviços diretos e indiretos. Assim, a paralisação das atividades minerárias certamente gerará outra tragédia anunciada: a econômica, para toda a região.

Um desafio enorme é posto como oportunidade para mostrar que os tais princípios e conceitos do Turismo sustentável são reais e, principalmente, aplicáveis. Que não são um blá-blá-blá teórico e retórico, mas bases de uma atividade realmente capaz de promover desenvolvimento.

O Turismo pode verdadeiramente ser entendido e considerado como uma forma de resgate da autoestima da população, de geração de emprego e renda, de recuperação ambiental e como um caminho para o crescimento econômico.

É a hora de projetos consistentes e estruturantes serem concebidos e implementados sob uma ótica técnica e séria, aproveitando uma onda de indenizações, multas e aplicação de recursos que certamente ocorrerá. Digo sérios, pois as tragédias também são um palco fértil para oportunistas, para tentativas empíricas, para achismos e para o uso indevido de recursos.

Envolver a juventude no desenvolvimento de projetos de vida e de carreira associados ao Turismo, qualificar empreendedores de forma objetiva e alinhada a princípios da sustentabilidade, incentivar o desenvolvimento de novos negócios associados à hospitalidade, repensar o conceito do destino turístico, trabalhar cadeias produtivas, apoiar na organização e no fortalecimento da governança local do turismo, replanejar a cidade de forma inteligente, valorizar os atrativos que resistiram, engajar os (potenciais) turistas em um movimento de apoio à reconstrução de Brumadinho são algumas possibilidades.  Mas existem muitas outras, e que deverão ser debatidas e construídas de forma participativa com os atores locais e com os bons técnicos.

Trabalhei em um projeto em Angola no qual o Turismo era a oportunidade para o reencontro do país com sua gente, cultura e belezas após um longo período de guerra civil. O caminho não é rápido nem fácil, mas é possível.

O ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, recentemente anunciou a liberação de R$ 62 milhões do Fundo Geral de Turismo (Fungetur) ao Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais para reerguer a atividade o Turismo na cidade, defendeu a atividade como oportunidade para a geração de empregos, para reduzir a dependência econômica regional do setor de mineração e ainda afirmou: “Brumadinho terá, no Turismo, a força que precisa para se reerguer”.

A mineradora Vale já se comprometeu a repassar R$ 80 milhões para o município ao longo dos próximos dois anos como forma de minimizar os impactos da paralisação da mineração. Haverá, ainda, o montante referente à indenização pelo acidente.

Recuperar vidas e eliminar o impacto emocional e ambiental será impossível, mas provavelmente haverá recursos financeiros suficientes para que a cidade e seus moradores busquem novos caminhos, e que uma tragédia silenciosa decorrente da desaceleração econômica não castigue ainda mais a população.

É a hora de o Turismo assumir a posição que tanto defende. Vamos em frente!

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