Projeto Lontra

Ainda bem que já era noite quando entramos na voadeira que nos levaria da comunidade indígena dos Sateré-Mawés de volta ao nosso barco/hotel. A emoção era tão intensa que sentia que as minhas lágrimas iam fazer subir o nível do rio. Pude chorar à vontade, já que o breu era tão intenso e ninguém podia me ver. Não tinha lua, não tinha estrelas. Tinha o rio imenso e a escuridão sem fim. E a sensação real de que eu fazia parte do sistema circulatório do mundo. Eu era uma pequena partícula dentro do fluxo de uma artéria, em sua fúria habitual. E era ali que eu queria estar naquele momento.

Projeto Lontra

Não dá para ser a mesma pessoa depois de passar por essa sensação. E é essa experiência transformadora que o Estado do Amazonas pode proporcionar em muitas oportunidades abertas para o mundo do turismo que, além de novos produtos, pode apoiar o desenvolvimento sustentável de comunidades e povos tradicionais. Basta conhecer mais desse patrimônio e desmistificar preconceitos dessa jornada.

O Via Sustentável foi convidado para uma entre as centenas de programas que se apresentam. A Festa do Guaraná de Maués, uma tradição que em 2019 completará 40 anos, foi o pretexto para essa viagem, mas a verdadeira celebração é a própria natureza local. Maués é uma cidade de aproximadamente 60 mil habitantes que fica a 250 quilômetros, em linha reta, a oeste de Manaus. Mais da metade da população vive fora do centro urbano. Só se chega até de barco ou de avião.

É uma cidade ribeirinha, na margem do rio Maués-Açu, um afluente do rio Amazonas, que serve como centro de referência para as comunidades do entorno. Então é comum que ela seja o ponto de apoio inclusive para os turistas. Há um Centro de Atendimento ao Turista (CAT) que indica os passeios disponíveis.

Foi de lá que partimos para conhecer uma das comunidades dos Sateré-Mawés, o povo indígena que criou o cultivo do Guaraná. Essa comunidade até há muito pouco tempo não recebia turistas e agora, depois de muita discussão na própria comunidade, ela se prepara para essa atividade. Recebeu um grupo de espanhóis para uma primeira experiência, que foi bem sucedida. Fomos então o segundo grupo.

Duas horas de voadeira rio acima. Como nessa época do ano é inverno na linha do Equador, o rio estava baixo o suficiente para ver copas de árvore surgindo da água. É como um mar de água doce. São cerca de dois ou três quilômetros de largura entre as margens. No verão chega a quatro quilômetros.

A paisagem é estonteante. Há praias em toda a extensão do caminho. Areias claras, às vezes escuras, mas sempre praias. E a floresta amazônica ao fundo, dos dois lados. Apesar de inverno, a temperatura oscila entre os 27 e 30 graus.

Bem-vindos ao rústico.

A chegada em uma pequena baía é de um azul-cinza espelhado. Os Sateré-Mawés dessa comunidade são bilíngues. Falam português, tem escola de ensino fundamental bilingue na comunidade e vivem o desafio de manter sua cultura original. A proposta de receber turistas é justamente uma forma de preservar a cultura tradicional e de ser financeiramente independente.

Cumprir a palavra dada é sagrado para esse povo. Como nossa chegada estava programada, eles nos esperavam desde as 8h da manhã. Nosso vôo, que era fretado, atrasou, chegamos mais tarde, mas eles estavam de prontidão, certos que chegaríamos. E chegamos. Fomos recebidos em assembleia pelo tuxaua Josibias, o líder da comunidade. Euforia, ansiedade, nervosismo de quem estreia nossa também, que chegamos ali pela primeira vez. As regras de convivência foram explicadas para que todos estivessem conscientes do seu papel – índios e brancos.

Participamos do ritual do Guaraná, uma cerimônia em que a mulher é quem tem o privilégio de preparar a bebida. O bastão de guaraná em pó compactado é ralado em pedra enquanto a tribo entoa cânticos. Em seguida, um a um que participa do ritual toma um gole da bebida. Sempre da direita para esquerda. E sempre se toma em números pares de vezes. “Porque não vivemos sozinhos”, diz o tuxaua.

 

A refeição é preparada com o que têm disponível não só na comunidade que visitamos, mas também das vizinhas. Tinha mandioca, graviola, abacaxi, farinha e formiga. A iguaria é preparada sem temperos, frita, mas tem um leve sabor residual de limão. Para quem quiser pernoitar, há redes disponíveis.

Os Sateré-Mawés são impressionantemente articulados. Eles atribuem sua inteligência e vitalidade ao consumo diário de guaraná. Levou quatro anos para que o ensino médio chegasse à comunidade. Quando chegamos, eles estavam celebrando justamente o encerramento do primeiro ano do curso de Agroecologia. “A nossa principal refeição é o desjejum. É como o almoço de vocês. Antes do curso, comíamos o que tínhamos e às vezes era nada. Tinha que ir atrás. Agora, aprendemos a plantar várias coisas junto com a floresta e temos fartura todo dia”, diz Sigliane Michiles Guimarães, de 19 anos. Ela quer fazer medicina. “Não sei quando vai ser, mas vai acontecer”, profetizou.

E foi por essa experiência intensa de um dia que acabamos não vendo as horas passarem e escureceu na Amazônia. Nos restava confiar no caboclo que pilotava a voadeira como se tivesse em sol claro. Rio abaixo a viagem seria mais rápida, mas no escuro da noite, levamos duas horas para voltar também. Tempo para recompor as emoções.

Dia seguinte era de conhecer os produtores de guaraná. Uma pequena decepção porque tivemos que mudar o programa em razão das chuvas. E essa é uma constante. Chove todos os dias, mais ou menos. E o programa sempre pode sofrer alterações. Mas toda mudança traz surpresas inesperadas. Atravessamos o rio, bem na frente de Maués e fomos para a Vila de Vera Cruz. É do outro lado do rio, mas é como se fosse o balneário do lugar. Tem várias praias e uma pequena vila de agricultores familiares.

Foi lá que conhecemos o Sêo Pedro e a Dona Zumila, produtores de guaraná. Eles plantam, torram, moem e vendem o guaraná em pó de Maués, legítimo. R$ 10 meio quilo. Para saber quem realmente produz guaraná é só olhar as pontas dos dedos, amareladas por separar polpa, casca e semente. No caminho entre uma casa e outra vimos as plantações de guaraná, mas passamos também por seringueiras, açaizeiros, buritizeiros, cupuaçu, e castanheiras. E por pessoas que vivem um dia depois do outro.

 

A Festa do Guaraná

O Governo do Estado do Amazonas organizou em 2018 a 39a Festa do Guaraná de Maués. É uma celebração da cultura dessa planta que garantiu à região o titulo de Terra do Guaraná. A festa é voltada principalmente à pessoas da região, mas recebe turistas de vários lugares do Brasil e estrangeiros.

A programação de três dias tem atrações nacionais – como foi o caso de Joelma, Naiara Rezende e Chiclete com Banana – e regionais, como as apresentações das lendas do guaraná, as cantorias dos bois Garantido e Caprichoso e a banda Tucumanus.

Cerca de 50 mil pessoas participaram dos eventos em três dias. É também uma experiência intensa pensar em uma festa deste tamanho no meio da floresta. Toda a estrutura chega de barco. Toda a logística precisa ser milimetricamente atendida porque não há recursos para soluções de última hora. E é lindo de ver que tudo dá certo e a alegria ilumina a floresta nesses dias.

Formatação de produtos

A Empresa Estadual de Turismo do Amazonas (Amazonastur) convidou operadoras de turismo e jornalistas de todo o Brasil para apresentar o potencial que o Estado do Amazonas tem de criar produtos de acordo com o perfil dos clientes. Leandro Alonso, coordenador de produtos nacional da Flytour MMT Viagens, que participou da expedição teve percepção de que a gente tem uma riqueza muito grande na parte turística para explorar. “São roteiros maravilhosos, exclusivos e exóticos para pessoas que buscam experiências de verdade. Temos interesse em incluir esse roteiro, mas falta os poderes públicos investirem mais em transportes. Mas nada que em algum tempo, juntos, podemos colocar a cidade de Maués na rota do turismo”, disse.

Para Thiago Esperandio, assessor de comunicação da Ambiental Turismo, a Amazônia é um patrimônio da humanidade conhecido, principalmente pela diversidade do bioma, mas igualmente rico pela história e cultura de seus povos. “Por tudo isso, é também uma marca famosa mundialmente. Conhecer Maués, a aldeia dos Sateré-Mawé, a comunidade ribeirinha da Ilha de Vera Cruz, a cultura em torno do Guaraná foi um privilégio inestimável e difícil de ser expressado em palavras. Só depois que vamos à Amazônia percebemos o quanto é preciso conhecê-la para podermos dizer, verdadeiramente, que conhecemos o Brasil. No entanto, isso não nos isenta da obrigação de lembrar sempre que a região demanda de políticas voltadas para o turismo, uma visão estratégica que integre todos os Estados onde a Floresta se encontra, respeito e comprometimento vindo de políticos e empresários, infraestrutura e planejamento voltado a tornar o turismo uma fonte de renda e de sustentabilidade para a floresta e para os povos que vivem nela”, sugere.

Thiago enumera pontos marcantes da viagem. “Encontramos pessoas como o Bruno Negreiros de Oliveira, veterinário e professor de Jiu Jitsu em Maués que é um conhecedor apaixonado por sua região que realiza trabalhos sócias nela. Tivemos a alegria de conhecer o menino Alex. Espontaneamente nos guiou pela sua comunidade da Vila de Vera Cruz. Fomos acolhidos com muito carinho pelo povo Sateré-Mawés em sua aldeia e recebemos muita atenção dos organizadores e realizadores da viagem como um todo. A Ambiental leva turistas a Amazônia há mais de 25 anos e espera sempre que o privilégio de visitar a região não dependa apenas de sua natureza sem igual no mundo e da boa vontade das pessoas maravilhosas que vivem ali”, completou.

Ana Cláudia, gerente de promoção e marketing da Amazonastur, disse que o escritório está aberto à inovação e co-criação de produtos. “Temos um potencial enorme e queremos que brasileiros e estrangeiros queiram conhecer o nosso Estado. Estamos abertos a pensar junto em como fazer isso da melhor maneira”, disse.

O diretor de promoção e marketing da Amazonastur, Beto Riva, reforça que é preciso conhecer de perto o Estado para desenvolver produtos de altíssima qualidade. “Temos uma natureza espetacular, comunidades tradicionais e diversidade de oportunidades que estão prontas para serem trabalhadas e proporcionar experiências inesquecíveis”, disse.

Manaus

 A porta de entrada do Estado tem em si um roteiro peculiar do Amazonas. Manaus é uma capital vibrante, contemporânea e a não ser pela memória do teatro, das artes e história, nada tem a ver com a arrogância da aristocracia francesa que fez parte da criação da cidade.

Ao contrário do que se pode esperar e, apesar de estar à margem do Rio Negro, o cotidiano é bastante urbano. A força da natureza se apresenta por meio da chuva, que é presente todos os dias. Por isso, pode parecer dicotomia, mas há um Museu da Amazônia – o MUSA – destinado a preservar o maior fragmento de floresta em área urbana do pais.

E ele é uma atração imperdível. São necessárias pelo menos quatro horas para apenas ver tudo o que tem. Espécies da flora e fauna amazônica, peças da cultura ribeirinha e muita história associada à visitação. As trilhas são leves, curtas e acessíveis até para idosos e deficientes. Só é preciso alertar para que o viajante leve roupas leves. De preferência calças compridas e botas, para evitar os insetos. Repelente e chapéu para proteger do sol também são itens de primeira necessidade. No meio do Museu há uma torre equivalente a 14 andares. São mais de 200 degraus para observar a floresta de cima. Vale cada passo!

Depois dessa aventura na floresta urbana, almoçar no restaurante Caxiri é uma ótima opção. Tanto pela comida, quanto pela localização. Fica em frente ao Teatro Amazonas. Da janela dá para avistar a cúpula colorida enquanto almoça. Enquanto espera a chuva do dia passar, é possível comer um peixe local, como o Tambaqui com uma caipirinha de Jambu.

Para fazer a digestão, a visita ao Teatro Amazonas é a próxima missão. Inaugurado no século 19, foi construído para atender a alta sociedade amazonense da época que queria estar à altura dos grandes centros culturais, em especial, de Paris. É uma construção renascentista, com pinturas que misturam deuses e anjos tradicionais desse período com a fauna e flora da Amazônia. É palco de diversos eventos culturais já tradicionais como o Festival Amazonas de Ópera.

O Mercado Municipal é outro ponto a incluir no roteiro. Principalmente pela diversidade de produtos típicos da região. Frutas, verduras, farinhas e costumes diferentes estão em todo o pavilhão. Vale parar para provar o açaí “verdadeiro”, diferente do que se apresenta no sul e sudeste.

Outro programa a ser incluído é o Encontro das Águas. Um passeio de barco de aproximadamente quatro horas que sai às 9h da manhã e inclui almoço para ver o encontro dos rios Negro e Solimões. Esse encontro também é bem visível do avião, mas nada se compara a colocar as mãos na água e sentir a diferença de temperatura e a transição das águas claras para escuras.

Outro restaurante para não perder é o Moquém do Banzeiro, do chef Felipe Schaedler. Ele utiliza ingredientes e produtos locais para dar vida a uma alta culinária com cara regional. Já a costelinha de tambaqui da entrada vale a visita. Mas não deixe de fazer a experiência completa até a sobremesa. Pode optar por qualquer um dos pratos principais que vai dar certo. Como estávamos em um grupo grande, pedimos e compartilhamos vários deles. Mas para finalizar, o suflê de cupuaçu é arrasador.

 

Sobre o Bruno

Thiago Esperandio citou o veterinário e professor de Jiu Jitsu Bruno Negreiros como um personagem da viagem, mas ele merece uma parte maior nessa história. Conhecemos o Bruno no dia em que chegamos a Maués. Ele foi escolhido pela Amazonastur como nosso guia. Não por acaso.

Bruno é local. Sua família é de Maués. Ele só não nasceu em Maués porque sua mãe foi até Manaus dar à luz. Mas cresceu na cidade, vivendo o sonho do pai de criar um laticínio de leite das cabras que eles criavam. Saiu de Maués para fazer a faculdade de Veterinária e ver no mundo o que havia de melhor em produção de queijos de cabra para trazer de volta a Maués. E trouxe. Em 2019, ele e a família inauguram o primeiro laticínio de queijo de cabra do Norte do Brasil.

E esse engajamento com a região não ficou por aí. A cada conversa ele fica mais inspirador. Bruno também é professor de Jiu Jitsu e dá aulas diariamente. Foi assim que começou a dar aulas voluntariamente para as crianças da comunidade dos Sateré- Mawés. Ele é um dos incentivadores da independência financeira da comunidade. Por meio do Instituto Valois de Jiu-Jitsu, em 2019 vão criar a primeira academia de Jiu-Jitsu em terra indígena do mundo. “Certamente os praticantes dessa arte marcial serão impactados com essa ação e vão se envolver com o desenvolvimento da comunidade”, comemora Bruno.

 

Como chegar

De barco, a partir de Manaus, são 356 quilômetros. Há saídas todos os dias do porto. São aproximadamente 18 horas de viagem nos barcos que eles chamam de regionais. Eles dispõem de redes em ambientes coletivos. Porém há a possibilidade de fechar barcos mais confortáveis e até sofisticados para grupos.

De avião, o trajeto é feito em aproximadamente uma hora. Maués tem um pequeno aeroporto. Há vôos duas vezes por semana partindo do aeroporto de Manaus.

Hospedagem

Em Maués há pequenos hotéis locais com o conforto de cama macia e chuveiro quente, mas não espere sofisticação. As pessoas dão o melhor de si no atendimento, são acolhedoras, mas a demanda ainda é baixa para comportar hotéis de maior porte.

Uma solução habitual é a hospedagem em barcos. Ficamos em um que se assemelha a um iate, com conforto de uma cabine de navio. Mas aí é preciso fechar o grupo e contratar o barco.

 

Viagem a convite da Amazonastur, com seguro Affinity

 

 

 

 

 

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